UM
Alan Brum
“Cheguei no evento caminhando por dentro de Manguinhos e já sentia o clima da Favela, a tensão, mas ao mesmo tempo o vigor do enfrentamento ao estado permanente de opressão policial que passam os moradores. Não digo o enfrentamento dos militantes e nem a mobilização participante no evento. Digo a capacidade de resistir a partir do direito a ter uma manhã de domingo rotineira. Sair e comprar o pão na padaria ou a ‘mistura’ pro almoço, parar na esquina do beco pra trocar uma ideia com o vizinho, brincar no quintal de casa favelada (a rua) ou mesmo tomar aquela ‘gelada’. Sim, galera, fazer o cotidiano acontecer é um ato de resistência. Já no evento, na entrada da Favela do Mandela, este aos poucos foi tomando corpo com diversos parceiros de luta, vítimas direta e indiretamente desse (des)governo e sua política de (in)segurança, representantes de Manguinhos, Maré, Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Mangueira e instituições, grupos e movimentos favelados e de outras partes da cidade. Marchamos por dentro do Mandela buscando maior adesão e voltamos ao ponto de partida. Num determinado momento chega a notícia de novos enfrentamentos no Jacarezinho e parte de nós fomos marchando e avisando:
“Aha, uhu o Jacaré não está sozinho!
Aha, uhu o Jacaré não está sozinho!”.
Fomos até o primeiro largo no Jacarezinho onde houve relevente aglomeração e envolvimento de moradores. Mano Al Neg fortaleceu com sua poesia de enfrentamento e resistência e o Padre que supreendeu puxando o Canto das Três Raças:
“ô, ô, ô, ô, ô, ô
ô, ô, ô, ô, ô, ô
Ninguém ouviu
Um soluçar de dor
No canto do Brasil
Um lamento triste
Sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro
E de lá cantou…”
Voltamos caminhando até onde ficou parte da manifestação inicial na rua Leopoldo Bulhões, entrada da Favela do Mandela. Atividades culturais, pinturas com as crianças, e muitas falas no microfone, algumas bastante forte como a de Dona Jane que tem um filho inocente encarcerado sem prova alguma. Ela recebeu a Medalha Jorge Carelli de Direitos Humanos pela FioCruz (que esperamos posicionamentos mais consistente perante a toda a barbárie que vem acontecendo). Outros foram homenageados com a Medalha.
Durante o tempo que estive presente novas parceiras e parceiros foram chegando. Conheci a Andréia Queiroz pessoalmente que está revolucionando o Colégio Clóvis Monteiro que atende alunos de Manguinhos e do Jacarezinho (vale muito chegar junto e conhecer esse trabalho).
Abracei, abracei muito todas e todos, pois a sensação de impotência que temos tido nas favelas precisa ser enfrentada e A ENERGIA POSITIVA DE UM ABRAÇO é uma das coisas mais valorosas que podemos dar um ao outro pra continuarmos resistindo e exigindo o direito mais básico e fundamental que é o DIREITO À VIDA.
Obs.: FALTOU a fala da grande parceira Ana Paula Oliveira. MÁXIMO RESPEITO À VC e sua história.
Obrigado pelo dia de hoje por estar perto dos meus pares favelados.”
Alan Brum Pinheiro